
No dia 11 de abril de 2026 subi ao palco do Education Summit, em Guimarães, para falar com professores, educadores, assistentes operacionais e pais sobre gestão emocional na infância.
Mas boa parte daquele tempo não foi passada a falar de crianças. Foi passada a guiar a sala para a sua própria autoconsciência emocional — a sensibilizar adultos para uma escuta que começa dentro deles, antes de conseguir chegar à criança que têm à frente.
E há uma palavra que vem antes de "gestão". É por aí que quero começar.
Usamos a palavra literacia quando falamos de ler e escrever. Ninguém espera que uma criança de seis anos saiba ler só porque cresceu. Sabemos que é preciso ensinar — letra a letra, com método, com repetição, com paciência, durante anos.
Com as emoções, fazemos o contrário. Esperamos que a criança saiba.
Esperamos que saiba distinguir frustração de cansaço. Que saiba que o aperto no peito antes do teste tem um nome. Que saiba dizer "estou com vergonha" em vez de bater. E quando não sabe — quando grita, atira a cadeira, foge da sala — tratamos isso como um problema de comportamento, e não como uma lacuna de aprendizagem.
Literacia emocional é isto: a capacidade de identificar, nomear e comunicar o que se sente. Não é "ser calmo". Não é "portar-se bem". É um vocabulário e uma competência — e, como qualquer competência, ensina-se.
A diferença entre chamar-lhe educação emocional, gestão emocional ou literacia emocional não é cosmética, e escolho a terceira de propósito. "Educação" soa a feitio, a carácter, a algo que se corrige. "Gestão" pressupõe que já se sabe o que se tem em mãos — só se gere aquilo que se consegue identificar. "Literacia" diz a verdade sobre o ponto de partida: é uma alfabetização. Há crianças analfabetas emocionalmente da mesma forma que há crianças que ainda não sabem ler.
Primeiro a literacia. Só depois a gestão.
Isto não é opinião minha — é neurociência.
António Damásio passou três décadas a demonstrar que a emoção não é o oposto da razão, é o seu alicerce. O cérebro processa o estado emocional antes de ter acesso ao pensamento deliberado. Quando uma criança está em sobrecarga emocional, a parte do cérebro que raciocina, antecipa consequências e escolhe entre alternativas está, literalmente, com menos recursos disponíveis.
A implicação prática é desconfortável para quem ensina: no momento em que uma criança está desregulada, ela não está disponível para aprender a lição que lhe queremos dar. Podemos explicar, argumentar, ameaçar — nada disso entra. Não porque seja teimosa, mas porque o canal está ocupado.
É por isso que a ordem importa. Primeiro regula-se, depois ensina-se. Invertê-la é falar com uma porta fechada.
A base do meu trabalho com crianças, famílias e educadores é uma sequência de três passos. É simples de enunciar e difícil de fazer, porque exige que o adulto resista ao seu primeiro impulso.
1. Dar nome à emoção.
"Estás com raiva." "Parece-me que isto te deixou triste." "Isso foi um susto."
Não é uma pergunta nem um diagnóstico — é oferecer uma palavra a quem ainda não a tem. O efeito é imediato: nomear uma emoção baixa a sua intensidade. A criança passa de estar dentro da emoção para olhar para a emoção.
2. Validar o sentimento.
"Faz sentido ficares com raiva. Tinhas construído aquilo há muito tempo."
Validar não é concordar com o comportamento. É reconhecer que a emoção é legítima. Esta é a parte que os adultos mais saltam, porque parece dar razão. Não dá. Diz apenas: o que sentes é real e eu não vou discutir contigo sobre isso.
3. Só então, o ajuste.
"E bater não é uma opção. O que podias fazer na próxima vez?"
O limite mantém-se intacto. O que mudou foi o momento em que entra — depois de a criança estar disponível para o ouvir.
Quem salta os dois primeiros passos e vai direto ao terceiro não está a ser mais eficiente. Está a repetir a mesma conversa todas as semanas.
O Rui, com quem fundei o AMAS, trabalhou durante anos numa comunidade de aprendizagem. Contou-me um episódio que eu uso em algumas das formações que dou, porque não há teoria que o explique melhor.
Um menino chutou uma bola de futebol para fora do recinto da escola.
Não foi um remate ao lado. Foi com raiva.
A bola desapareceu, os colegas ficaram sem jogo, e o que começou como discussão acabou em agressão física entre crianças. A reação do adulto mais próximo foi imediata e, vista de fora, perfeitamente razoável: castigo para quem tinha chutado a bola.
O caso parecia fechado. Havia uma causa, um culpado e uma consequência.
Horas mais tarde, o Rui sentou-se com aquele menino e fez a pergunta que ninguém tinha feito.
Os pais dele estavam em recuperação de uma dependência e não davam notícias há dias. Vivia com a avó, que fazia tudo por ele e que atravessava dificuldades económicas sérias. Na noite anterior — uma noite de inverno — tinham ficado sem luz. A avó passou essas horas aflita, com o neto, numa casa fria, sem saber dos pais dele.
Na manhã seguinte, aquele menino foi para a escola.
E a certa altura apareceu-lhe uma bola à frente.
A resposta foi à bola. Ninguém respondeu ao menino.
Não houve escuta ativa. Não houve um segundo de curiosidade sobre o que levava aquela criança a chutar uma bola com aquela força. Não se deu nome a nada, não se validou nada — passou-se diretamente ao terceiro passo, à correção, como se o primeiro e o segundo fossem tempo perdido.
E é precisamente por não se ter passado por eles que a correção não podia funcionar. Não havia ali uma criança indisciplinada a precisar de ajuste. Havia uma criança a transbordar, com uma emoção que ninguém tinha ajudado a nomear, à procura de qualquer sítio para a pôr. Apareceu-lhe uma bola.
O comportamento era um pedido de ajuda e foi lido como infração. A leitura estava errada — e, com a leitura errada, qualquer resposta estaria errada também.
É este tipo de momento que quero que deixe de acontecer dentro de uma família escolar. E não se trata de culpar o adulto que agiu assim: sem tempo e sem treino para parar e perguntar, foi aquilo que ele tinha disponível naquele momento. É exatamente esse treino que falta — e é ele que se pode aprender.
Portugal tinha jogado um Mundial e não tinha corrido bem.
Numa roda de partilha, de manhã, o grupo não falou do jogo. Falou da desilusão. O que é, como se reconhece, o que se sente quando se esperava uma coisa e aconteceu outra. Estávamos todos desiludidos com Portugal, e passámos alguns minutos a pôr nome a isso.
Poucos dias depois, um menino chega à escola com um brinquedo novo de casa.
A certa altura da manhã, noto que está em baixo. E a pergunta que lhe faço não é "está tudo bem?" — a essa, a resposta é quase sempre "sim". É:
Vejo que te sentes um pouco em baixo. Queres partilhar o que estás a sentir?
E ele responde: "Estou desiludido."
Desiludido. Não "triste", não "zangado" — as palavras fáceis, as que estão sempre à mão. Uma criança daquela idade escolheu a palavra exata, poucos dias depois de a ter aprendido numa roda sobre futebol.
Estava desiludido com os amigos. Tinha trazido o brinquedo de casa a contar que quisessem brincar com ele, e naquela manhã os amigos estavam entretidos noutras coisas — a bola, as apanhadas, as escondidas. O brinquedo não lhes chamou a atenção naquele dia.
O primeiro passo foi dado pela própria criança. Ele nomeou a emoção sozinho — foi exatamente para isso que a roda serviu. O segundo veio de mim: faz sentido ficar desiludido quando se traz uma coisa de casa à espera de uma reação que não chega.
E só depois, com ele já disponível, veio a pergunta que abriu o resto:
O que é que tu achas que levou os amigos a não quererem brincar contigo hoje, e com esse brinquedo?
"Ah, eles hoje queriam todos jogar à bola."
Disse-o ele. Ninguém lho explicou.
E foi ele que chegou ao fim do raciocínio: aquilo era um momento passageiro. Não queria dizer que os amigos não gostavam dele, nem que não queriam brincar com ele, nem que o brinquedo não prestava. Naquele dia havia outras coisas a ocupar-lhes a atenção e a disponibilidade.
Vale a pena notar o que eu não fiz. Não disse "não fiques triste". Não garanti que os amigos gostavam dele. Não lhe fui arranjar outro grupo para brincar. Fiz uma pergunta e fiquei calada.
A conclusão foi dele. E é por ser dele que lhe vai servir outra vez, na próxima desilusão, sem adulto nenhum por perto.
Repare-se numa coisa: ninguém ensinou "desiludido" àquele menino no momento em que ele precisou da palavra.
Ensinou-se dias antes, numa roda de manhã, a propósito de um jogo de futebol, sem nenhum problema para resolver e sem ninguém em crise.
A roda da manhã não serve para apagar incêndios. Serve para que, quando houver um, a criança já tenha as palavras na mão.
É o instrumento mais simples que conheço para construir literacia emocional num grupo, e defendo-o para qualquer sala e para qualquer casa: todos sentados em círculo, no início do dia, cada um a dizer como se sente. Quem não quiser falar, passa — e escutar também é uma forma de estar na roda.
Há uma pergunta, na roda da manhã, que considero essencial e que raramente se faz: "Como dormiste?"
Dá-se muito pouca importância à qualidade do sono na disponibilidade de uma criança. E, no entanto, é frequentíssimo que uma criança desregulada — com comportamentos que nem são típicos dela — tenha apenas dormido menos uma ou duas horas do que o normal. Os pais foram jantar fora e chegaram tarde. Nasceu um irmão e ele acorda de madrugada. Houve uma noite difícil em casa por qualquer razão.
Nada disto aparece se a pergunta for "está tudo bem?".
E a pergunta faz duas coisas ao mesmo tempo. Dá ao adulto uma informação que muda a leitura do dia inteiro — aquela criança não está difícil, está exausta. E ensina à própria criança uma ligação que ela ainda não fez sozinha: que quando dorme bem o corpo responde de uma maneira, e quando a noite não correu bem responde de outra.
Isto também é literacia emocional. É perceber que o que se sente tem causas — e que algumas delas estão num sítio tão pouco dramático como as horas de sono.
Vale a pena olhar para o que a roda teria mudado naquela manhã.
Aquele menino tinha passado uma noite de inverno sem luz, numa casa fria, com uma avó assustada e sem notícias dos pais. Nenhuma pergunta sobre comportamento ia encontrar isso. Nenhum castigo ia encontrar isso.
"Como dormiste?" encontrava-o em dez segundos — e antes de haver bola, antes de haver conflito, antes de haver alguém a quem castigar.
A parte difícil deste trabalho não é com as crianças.
Para dar nome a uma emoção, é preciso reconhecê-la. Para validar o que a criança sente sem ser engolido por isso, é preciso alguma regulação própria. Um adulto que nunca aprendeu a nomear a sua própria frustração vai ter dificuldade em acompanhar a frustração de outra pessoa — e quase sempre resolve-a a mandar calar.
Não é um julgamento, é um acontecimento comum nos nossos dias. A maioria dos adultos que hoje educa crianças cresceu sem este vocabulário, numa altura em que "não chores" era o conselho padrão e o castigo era o método.
Por isso é que a literacia emocional de uma criança começa antes dela. Começa no adulto que está à frente — pai, mãe, professor, educador — no dia em que ele próprio começa a dar nome ao que sente em vez de o despachar.
É um trabalho que se faz devagar e que não tem diploma. Mas é o único que se transmite.
Ana Maria Soromenho é fundadora do AMAS Estúdio, em Aldeia do Meco. Mestre em Educação pelo Instituto Piaget de Almada, com a tese “Educar pelas Artes”, é professora de yoga certificada (crianças e gravidez), professora de dança criativa e especialista em psicopedagogia e gestão emocional. Tem mais de 25 anos de experiência em educação, incluindo a fundação de um jardim de infância na selva da Tailândia e de um projeto de pedagogia de projeto em comunidade, em Portugal.
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